01/07/2026

Notícia/Colunista

Por Doutor Tássio Alvarenga Lopes: a garota do bungee jumping!

Foto: Ilustrativa

E aquele dia o telefone tocou diferente! ela se jogou da janela do décimo andar! E minha vida mudou de repente! em seus belos olhos eu não poderia mais olhar!

E talvez a lembrança mais afetiva de que eu tenha dela fora aqueles olhos esverdeados lindamente realçados pelos tênues raios solares daquela manhã. Estávamos conversando sentados ao lado de uma cantina e ela me relatava seus dissabores amorosos e, de vez quem quando, esboçava um pálido sorriso ao falar de algum sonho que gostaria de realizar!

Ela vinha namorando um rapaz com o qual não estava bem! Hoje se fala em relação tóxica , mas naquela época o termo 'apaixonite' se encaixava melhor. Não estava feliz, mas não conseguia se desligar de tal envolvimento amoroso. A cada dez palavras que dizia, nove se referiam a tal rapaz. Sempre chorosa e lamuriosa, claramente se via que estava se dirigindo ao abismo existencial.

Em um raro lampejo de lucidez mental expressou com doçura e determinação: " quero pular de bungee jumping, mas sozinha não vou"! Perguntei a ela por que não iria com seu namorado? Ela me sussurrou que ele achava aquilo ridículo! Prontamente me propus a ir com ela!

Era sábado e morávamos em uma cidade onde havia um pico montanhoso turístico de onde muitos praticavam tal modalidade esportiva radical. Ela ficou eufórica com a ideia, mas me disse que não poderia ir pois gastaria 150 reais e só possuía 100 reais. Prontamente pus a mão no bolso e lá estavam exatos cinquenta reais. Passei a ela o dinheiro e gritei: " Vamos agora"!!!

Saímos caminhando rumo ao bonde que nos levaria ao local do salto. Quando íamos adentrar o vagão do referido bondinho, ela foi tomada por um sentimento de negativismo intenso e não quis mais ir. Foi como se algo ou alguém estivesse em sua mente e a impediu subitamente de realizar seu sonho. Tentei em vão convencê-la do contrário!

Dias depois encontrei minha amiga andando cabisbaixa pela praça da cidade. Contou-me arrependida de ter usado os 100 reais para comprar um presente para o tal rapaz por quem estava apaixonada, mas, com lágrimas nos olhos me externou: " Nada mudou"!

Semanas depois, meu telefone tocou - minha amiga tinha se jogado do décimo andar!? 

Por quê? Saltou do décimo andar sem proteção e não saltou de bungee jumping? não se permitiu viver seu sonho e se jogou no abismo de um relacionamento doentio! se matar sem se permitir viver sonhos, experimentar cheiros e sabores, conhecer pessoas, viajar a cidades e países,  enfim, se matar sem dar um salto rumo a uma vida diferente e com pessoas distintas.

Que a garota do bungee jumping seja um exemplo para nós de como nos permitir viver é o primeiro passo de nos afastarmos da experiência da morte prematura!

autor

POR: DR. TASSIO ALVARENGA LOPES

PSIQUIATRA COM FORMAÇÃO EM MEDICINA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA E RESIDÊNCIA MÉDICA EM PSIQUIATRIA PELO CENTRO HOSPITALAR PSIQUIÁTRICO DE BARBACENA DA FUNDAÇÃO HOSPITALAR DE MINAS GERAIS.

CRMMG 47.499 RQE 34.293

 

RUA EXPEDICIONÁRIO BOAVIDIR MASSOTE, 354, CENTRO CAMPO BELO/MG

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