27/09/2020

Notícia/Colunista

Por Dr. Tássio Alvarenga Lopes: Bem estar mental em tempos de pandemia!

Foto: Dr. Tassio Alvarenga Lopes

Quem já ouviu falar da fabula do peru, do galo e da raposa? Conta esta fabula que certa vez andavam pelo quintal um galo e um peru. Aproximou-se deles uma raposa faminta e, de prontidão, tanto o galo quanto o peru subiram em uma árvore e lá se afugentaram da esperta raposa. O que se passou depois foi crucial para o futuro de ambos, peru e galo. O galo tranquilo logo notou que a raposa não conseguia subir a árvore e lá permaneceu quieto em um galho, observando a raposa, mas mantendo-se equilibrado e sereno. Porém o peru, mesmo estando em uma posição de proteção, desesperou-se e pulava de galho em galho emitindo sons de pânico, até que, em determinado momento, caiu da árvore e viu seu destino se encaminhar de forma terrível - virou refeição da raposa. O galo, após a tormenta, desceu de sua guarida, salvo e seguro, demonstrando a todas as galinhas do terreiro como se comportar frente a uma situação de estresse e ameaça à sua vida!

 

Estamos vivendo mais um grande trauma na história da humanidade - uma pandemia provocada por um coronavírus que tem trazido sofrimentos físico e mental intensos, mortes frequentes, crise econômica mundial e mudanças comportamentais pessoais e coletivas inéditas na história desta geração! 

 

Veja a história recente da humanidade e verás que, há não muitos anos, os seres humanos passaram por traumas e estresse de magnitude igual e/ou superior à crise que estamos vivendo.  A primeira guerra mundial perdurou de 1914 a 1918 e matou cerca de 10 milhões de pessoas e deixou 30 milhões de feridos. E o que se pode dizer da gripe espanhola, que entre janeiro de 1918 e dezembro de 1920, dizimou algo em torno de 50 a 100 milhões de pessoas. Não pouco tempo depois, entre 1939 a 1945, o mundo se viu em uma segunda guerra mundial, na qual morreram 45 milhões de pessoas e deixaram 35 milhões de feridos. E a fome? Trauma oculto, contínuo, que não causa tanto alarde e que mata uma pessoa a cada 4 segundos. A violência então, nem nos assusta mais, elimina 1,6 milhões de pessoas por ano conforme a organização mundial de saúde! A história não pode servir como álibi para o desdém nosso diante das tragédias! A humanidade sobreviveu a inúmeras catástrofes, com duras perdas, e a experiência advinda de traumas antigos precisa ser nosso guia em situações de desespero. 

 

Sob o prisma da psiquiatria, quando uma pessoa passa por uma situação de estresse, que seria, de forma sucinta, uma experiência desagradável de quase morte ou de grave comprometimento de seu bem estar físico ou psíquico, pode evoluir com estresse pós - traumático. Acredito, que uma pequena minoria venha a desenvolver tal quadro na realidade atual de coronavírus em expansão mundial. Uma parcela dos que contraírem o Covid - 19 e sobreviverem, virão a apresentar quadros de medo quando reexpostos a alguma doença, flashbacks e pesadelos reais com lembranças intrusivas do trauma vivido e fuga ativa de situações e locais que lembram a experiência traumática. Precisarão, com certeza, de ajuda psicológica e psiquiátrica. Por outro lado, a grande maioria da população já sofre de agudização de processos patológicos mentais prévios e, todos nós, passaremos por um grande processo de histerese emocional que nos moldará de forma irreversível.

 

Neste momento, quem já tem transtorno de ansiedade, quadros depressivos e hipocondria (medo de doenças) e personalidades mais ansiosas e emocionalmente instáveis já apresentam piora de seus sintomas e, necessitam de suporte psicológico e ajuste nas suas medicações. o pânico instalado e disseminado de ser contaminado tem agravado manifestações de crises de pânico; o isolamento social tem piorado o humor depressivo dos doentes com tal morbidade; os hipocondríacos já sentem em seu corpo os sintomas da atual gripe, mesmo sem ter contraído tal doença e os portadores de transtornos de personalidade tem disseminado fake news, agido de forma impulsiva, e, muitos tem negado a existência  da problemática atual não aceitando seguir normas estabelecidas pelas autoridades locais colocando em risco outras pessoas e a estabilidade social de nossas cidades.

 

Uma coisa é certa, não seremos mais os mesmos após tal experiência! Após os mais de 5 anos de agressões que estamos sofrendo, dia após dia, teremos sequelas irreversíveis em nosso modo de viver. Aqui se insere o conceito de histerese emocional. Entenda histerese como um processo de perdermos capacidade de voltarmos ao nosso modo basal de vida após muitos agravos e tentativas de superarmos tais agressões. Um exemplo clássico, seria o que ocorre com um elástico de uma cueca ou de uma calcinha, de tanto estica e puxa, uma hora o mesmo se relaxa e já não consegue manter uma compressão adequada. Nos últimos anos, o brasileiro tem sofrido muito!  Temos passado por incertezas políticas constantes com amigos e desconhecidos se ofendendo em redes sociais por posições políticas diversas. A crise econômica se arrasta, o poder de compra caiu bastante e o desemprego e as dívidas pessoais se acumulam. O consumo de drogas se dissemina devastando lares e a violência já não é um algo raro de nosso cotidiano - pessoa próximas tem sido assassinadas e violentadas. E, quando parecíamos nos recuperar, vem uma onda viral que nos obriga a enxergarmos nossa impotência e fragilidade humanas e nos põe de joelhos mais uma vez! Tudo isto nos deixará mais pessimistas, dependentes e suspicazes!

 

E tem saída para esta crise existencial? Sim, mas precisamos ser galos e não perus! Algumas dicas são importantes!

 

1. Aceite o problema! Estamos diante de uma pandemia viral mundial! A raposa chegou!

2. Não se desespere! Mantenha a calma! Se você é mais ansioso e hipocondríaco, procure ajustar sua medicação e faça terapia. Vários psicólogos estão atendendo via online e muitos psiquiatras estão em seus consultórios para ajudá-los!

3. Eleja um líder! Em casa sempre temos alguém com personalidade mais madura e sensata. Coloque o galo para gerenciar o seu lar e siga as suas instruções!

4. Respeite o líder! Não faça nada que vá contra as ordens impostas pelas autoridades locais, como prefeitos e secretários de saúde! Fique em casa, evite aglomerações, evite viagens, não se exponha ao risco de contaminação! Se o galo disser para ficar quieto na galho - fique!

5. Seja solidário! Empatia neste momento é o que irá nos salvar como um grupo de seres humanos que sabem se amar! Ajude os idosos e crianças, seja um braço forte aos mais frágeis física e mentalmente, faça doações e socorra a quem a vida já lhe deu tão pouco!

6. Olhe para cima! o peru caiu porque só olhava para a raposa! Não olhe só para o problema! Olhe para cima, para onde veem o socorro! uma vez uma pessoa queria se suicidar pulando de uma ponte, e, quanto mais olhava o rio e suas ondas, mais queria se jogar dali. Até que veio uma pessoa e gritou: "olhe para o céu". Na mesma hora, ao se desfocar de seu fatídico destino e se ver diante de um céu de possibilidades, desistiu de se matar e foi salva! Olhe para cima e erga sua cabeça! Faça como os velejadores e procure estrelas e constelações que iram te guiar! por fim, olhe para o seu deus! Para quem acredita, fé, neste momento, pode mover a montanha do desespero!

7. Simplifique o fluxo de informações! Tem muitas fake news sendo disseminadas e o excesso de dados, neste momento, pode lhe cansar e lhe fazer perder o controle! Eleja sites confiáveis de informação e estabeleça um horário para se atualizar! Evite o excesso de informações desestabilizadoras!

8. E se adoecer, esteja disposto para se tratar e não dissemine mais a doença! Seja forte para passar pela tempestade, pois logo virá a bonança!

 

Deixo meus votos de saúde e paz a todos e sempre tenha em mente que na crise se cresce!

 

autor

DR. TASSIO ALVARENGA LOPES

CRMMG 47.499 RQE 34.293

PSIQUIATRA COM FORMAÇÃO EM MEDICINA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA E RESIDENCIA MEDICA EM PSIQUIATRIA PELO CENTRO HOSPITALAR PSIQUIÁTRICO DE BARBACENA DA FUNDAÇÃO HOSPITALAR DE MINAS GERAIS.

 

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