15/09/2019

Notícia/Colunista

Por Dr. Tássio Alvarenga Lopes: surto psicótico e saúde pública!

Foto: Dr. Tassio Alvarenga Lopes

É inerente ao ser humano a desconfiança. Ter dúvida é o que mantém todos nós em perfeito contato com a realidade. A forma como cada um vê, ouve e sente o ambiente é diferente. Mais diversa ainda é a capacidade de entender o que se escuta, o que se enxerga e o que se depreende do habitat. A certeza é algo raro. Duvide sempre de quem tem a certeza absoluta de algo. Todos nós construímos castelos ao ar, mas agora viver em um castelo ao ar é algo compatível com a perda do contato com o real e, portanto, está no plano da psicose.

Estar psicótico é perder a noção do que é real. Real é aquilo que a maioria das pessoas consegue absorver do ambiente no dia a dia. Estamos em contato com o mundo através da visão, da audição, da sensopercepção, do olfato, do tato e de nossa função cognitiva. Quando por algum motivo externo ao nosso corpo ou interno ao nosso organismo temos alterações nestas modalidades de entendermos o que está ao derredor, entramos em estados psicóticos.

O surto psicótico pode se expressar através de delírios, alucinações, alterações da comunicação e alterações comportamentais. Delírio é uma crença irremovível em fatos inexistentes. O paciente delirante pode acreditar piamente que está sendo traído pelo cônjuge, que está sendo envenenado, que está sendo vítima de um complô persecutório no trabalho, que forças espirituais agem sobre seu corpo, que possui poderes especiais e que está sendo amado em oculto. Além do delírio, um paciente em surto pode ter alucinações. Estas são sensopercepções errôneas. Um paciente pode ouvir vozes, sentir cheiros, ver pessoas e objetos inexistentes, sentir toques em sua pele, achar que está sendo filmado ou observado, sentir que pode ler pensamentos dos outros e perceber que pode ter sua mente controlada, mesmo que tudo isto seja irreal. É de subentender que um paciente delirante e com alucinações não vai apresentar um discurso coerente e nem um comportamento socialmente aceitável. Seus dizeres ficam desconexos, passa a falar assuntos sem sentido e confusos e expressam suas crenças e medos em palavras soltas e descarrilhadas. Podem ficar acuados ou agressivos, tendem a se isolar em casa no quarto ou saem perambulando pelas ruas das cidades, podem tentar se matar e se automutilar e podem cometer crimes contra o patrimônio público e/ou contra seu próximo - parentes ou terceiros.

A psicose tem importância forense grandiosa. Pessoas que cometem crimes sob surto psicótico podem ser isentos de pena, uma vez que esta doença tira a capacidade de entendimento e determinação. Tem pacientes que podem sem matar ou matar outrem motivados por vozes de comando. Outros podem atirar objetos contra alvos humanos, animais ou físicos. Chegamos a ter casos alarmantes de pessoas que se automutilam, cortando-se e arrancando partes do corpo motivados por delírios e alucinações. 

A psicose pode ser primária ou secundária. Nos casos considerados primários, a pessoa entra em surto psicótico por fatores causais psicogênicos. Muitas das vezes, possuem parentes com transtornos psiquiátricos parecidos. Nestes casos, podemos citar os transtornos psicóticos breves, os pacientes esquizofrênicos, os pacientes bipolares com psicose associada e os casos de depressão psicótica. Os casos secundários são causados, principalmente, por drogas, doenças clínicas e fármacos. Cocaína, crack, ecstasy, chá de cogumelo, heroína e LSD são as principais drogas associadas a psicose. Tumores cerebrais, doenças da tireoide, doenças renais e hepáticas, infecções cerebrais e quadros demenciais são exemplos de doenças orgânicas que podem levar pacientes hígidos a um estado psicótico. Não podemos nos esquecer dos anabolizantes e fármacos para emagrecer como causas muito comuns de alteração do estado mental.

Um paciente em surto psicótico precisa ser acolhido imediatamente pelo serviço de saúde do município. Não pode ser alvo de preconceito e nem de violência física por parte dos munícipes. Ao estar exposto a risco e ao colocar terceiros em risco é de responsabilidade do poder público intervir, acolhendo e tratando estes pacientes e orientandos seus familiares. A saúde mental precisa ser tratada com mais atenção e carinho pelas autoridades brasileiras. Muitos dos pacientes psicóticos vem de famílias com baixo poder aquisitivo e baixo potencial cultural, o que dificulta que tenham acesso a um atendimento médico de qualidade. 

Estar em surto psicótico é precisar de um atendimento médico psiquiátrico de urgência. Em muitas ocasiões, os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) não possuem estrutura para um atendimento psiquiátrico adequado e eficaz. Os CAPS precisam ter médico psiquiatra diariamente, com acesso a exames bioquímicos e de imagem e com fácil comunicação com as outras especialidades medicas em caso de necessitá-las. Não podemos empreender um luta antimanicomial ideológica e irresponsável levantando a bandeira de que hospitais psiquiátricos são um câncer a ser extirpados da sociedade. Os erros de um passado hospitalocêntrico com manicômios mal geridos não podem ser repetidos! Mas, muitos pacientes podem se beneficiar de internações rápidas e eficazes evitando que os mesmo sofram danos irreparáveis ao perambular por cidades cada vez mais violentas. Outra forma de acolher os pacientes em surto é a criação de alas psiquiátricas em hospitais clínicos de pequeno porte onde poderão ser tratados em suas próprias cidades e por profissionais psiquiatras competentes com auxílio de enfermeiros especializados em saúde mental, de psicólogos, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais. Saúde mental de qualidade só se faz quando o preconceito contra o transtorno mental for combatido. A solução para um bom atendimento é simples - acolher o paciente com transtorno mental no PSF e no CAPS, trazer o CAPS para trabalho conjunto com o PSF, conectar o CAPS aos centros de urgência da cidade e ao leitos psiquiátricos dos hospitais (quando existirem) e criar residências terapêuticas para moradia de doentes crônicos sem estrutura familiar. Mas, acima de tudo valorizar a figura do psiquiatra e não delegá-lo a segundo plano, capacitar enfermeiros e técnicos de enfermagem para atuarem na saúde metal e reconhecer o papel crucial dos psicólogos, assistentes sociais e terapeutas comportamentais.

E temos que lembrar sempre -" mente sã, corpo são". Se a saúde mental não estiver preservada, de nada adianta um corpo saudável.

autor

DR. TASSIO ALVARENGA LOPES

CRMMG 47.499 RQE 34.293

PSIQUIATRA COM FORMAÇÃO EM MEDICINA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA E RESIDENCIA MEDICA EM PSIQUIATRIA PELO CENTRO HOSPITALAR PSIQUIÁTRICO DE BARBACENA DA FUNDAÇÃO HOSPITALAR DE MINAS GERAIS.

 

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