21/07/2019

Notícia/Região

Médico envolvido na morte de dois recém-nascidos pede afastamento da Santa Casa

Foto: SCF/Divulgação

A Santa Casa de Formiga afirmou na manhã desta quinta-feira (14) que o médico envolvido nos partos de dois recém-nascidos que morreram na unidadepediu afastamento do cargo. O caso é investigado pela Polícia Civil e por uma comissão interna do hospital.

Segundo a unidade, o médico pediu afastamento até o final de todas as investigações. A Santa Casa também informou que todos os procedimentos foram realizados corretamente em ambos os casos.

A Santa Casa afirmou que toda a assistência prestada no hospital é registrada em prontuários para o fornecimento de dados para a Comissão de Prevenção de Mortalidade Materna, Infantil e Fetal, que, por sua vez, são monitorados pela Secretaria de Estado da Saúde.

Ainda segundo a nota emitida pela unidade hospitalar, foram realizados 693 partos na unidade em 2018 e, destes, três resultaram em óbitos neonatais – o que, segundo o hospital, representa uma mortalidade de 0,43%, valor abaixo da média nacional, que é de 1,0%.

As mortes foram registradas na unidade hospitalar em menos de um mês e os partos foram feitos pelos mesmos médicos. Na segunda (11), o delegado regional do Conselho Regional de Medicina (CRM) em Divinópolis, responsável por Formiga, Eduardo Dias Chula, afirmou que não foi procurado pelo diretor clínico ou responsável técnico da Santa Casa.

 

Os casos

 

A Polícia Civil afirmou na última segunda-feira que instaurou inquérito para investigar a morte de dois recém-nascidos na Santa Casa de Formiga.

De acordo com a de casa Alessandra da Silva, mãe de um dos recém-nascidos que morreram na Santa Casa de Formiga, ela fez todo o pré-natal na instituição e nenhum problema foi diagnosticado. A dona de casa começou a sentir contrações, mas estava com dificuldade em ter o parto normal. Mesmo assim, segundo ela, os médicos optaram por não fazer a cesárea.

“Falou [o médico] que eu era gorda, estava obesa e não podia fazer a cesárea porque poderia pegar uma infecção, uma bactéria por causa da gordura, aí ele [médico] não quis fazer a cesárea", explicou Alessandra.

Alessandra da Silva — Foto: Reprodução/TV Integração

Alessandra da Silva — Foto: Reprodução/TV Integração

Alessandra da Silva — Foto: Reprodução/TV Integração

Segundo o marido de Alessandra, Alessandro Menezes, a cesárea só foi feita após a família fazer um boletim de ocorrência e ele foi proibido de acompanhar o parto.

"Na porta eles me barraram, não podia entrar. Que só eles [equipe médica] poderiam acompanhar no momento, eu não poderia. Disseram que assim que nascesse iriam me chamar. Eu achei aquilo estranho", disse o pai da bebê.

A menina nasceu com 53 cm e pesando 4,6 kg. No entanto, Alessandra só teve notícias da filha no dia seguinte, após a troca do plantão da equipe médica. No entanto, ela não conseguiu ver a filha no hospital.

"Eu fui ver ela [bebê] na sexta-feira no velório. Aí que eu fui ver ela dentro do caixãozinho. No hospital eles não deixaram eu ver, ela não chorou, não mamou, não fez nada. Eles já saíram com ela correndo e não deixaram eu ver ela dentro do hospital", falou a mãe.

Entre as causas da morte apontadas pela necropsia, estão a falência múltipla de órgãos, distúrbio de coagulação e asfixia perinatal grave.

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O médico responsável pelo parto de Alessandra é o mesmo responsável pelo parto do segundo filho da funcionária pública Simone Antônia Pinto, cujo o bebê morreu após o nascimento na unidade hospitalar.

De acordo com Simone, ela começou a sentir contrações no oitavo mês de gestação, mas ao chegar na Santa Casa foi informada que não poderia fazer a cesárea, pois estava com infecção. Ela afirmou que ficou três dias internada na unidade sem que os médicos contassem qual era o problema.

Após começar a ter sangramentos e os médicos encontrarem dificuldades para ouvir o coração do bebê, é que a cesárea foi feita. Ela recebeu a notícia da morte do filho ainda no centro obstétrico da unidade.

Simone Antônia Pinto — Foto: Reprodução/TV Integração

Simone Antônia Pinto — Foto: Reprodução/TV Integração

"Falaram que foi devido a uma infecção que eu dei, mas não tive nem febre. Eu estava com 36,5º, 37º e não tinha febre; [diagnóstico] seria um infecção e ele [bebê] teria que nascer normal", contou Simone.

O recém-nascido ficou um dia na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) Neo Natal da Santa Casa e não resistiu. A necropsia apontou sofrimento fetal agudo, prematuridade, parada cardiorrespiratória em sala de parto e insuficiência renal aguda. A mãe afirma que só recebeu o diagnóstico do médico após o óbito do bebê.

"O neném não resistiu. Depois de meia hora que ele [médico] voltou e falou que conseguiram reanimar ele [bebê]. Minha bolsa não estava rompida, estava deslocada. Só que eles não me contaram e me deixaram lá".

Inquérito

 

De acordo com o delegado regional da Polícia Civil em Formiga, Irineu José Coelho, as famílias dos bebês serão ouvidas a partir desta terça-feira (12) e uma necropsia já foi solicitada.

“Estamos de posse da documentação, do prontuário do atendimento e vamos verificar, através deste inquérito policial, se houve o cumprimento do protocolo médico ou, caso seja constatada a negligência em perícia, qualquer erro por parte do profissional, ele poderá responder por homicídio culposo”, afirmou.

O delegado afirmou ainda que a abertura de um inquérito policial só é possível após o registro de uma ocorrência policial sobre o fato e pediu que, em casos como esse, a polícia seja contactada.

“Se não houver o registro de uma ocorrência policial ou se a família não comparecer à Delegacia para noticiar os fatos, fica mais difícil em razão das peculiaridades. Então a gente pede que caso tenham outros acontecimentos semelhantes, que as pessoas nos procurem para que nós possamos ampliar essa investigação e buscar respostas para esses acontecimentos”, relatou.

Ainda segundo o delegado, o inquérito será concluído em até 30 dias, ficando pendente apenas exames complementares que, conforme Irineu, já estão a cargo do médico legista.

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