18/08/2019

Notícia/Colunista

Dr. Tássio Alvarenga Lopes: Você é normal ou louco?

Está aí um tema controverso na psiquiatria - quem é normal e quem é louco?  Afinal de contas como medir a normalidade e a loucura? Quem estabeleceu com precisão os limites entre estas duas formas básicas de expressão do viver? Esta é uma questão antropológica que transcende uma avaliação puramente médica. Ser normal hoje pode ter sido loucura ontem e amanhã pode adquirir uma nova interpretação. Uma pessoa pode ser considerada louca por não expressar ideias ou comportamentos aceitáveis pelos padrões da época em que viveu. Ter sucesso e, consequentemente, ser considerado normal, pode ser fruto de um comprometimento extremo com o politicamente correto. Inclusive, classificar pessoas como normais ou loucas soa de uma forma bem preconceituosa e devemos ter muito cuidado como uso de tais termos.

Já li e escutei frases interessantes que dizem "os loucos são os que movimentam o mundo"! Se considerarmos que Henry Ford, Albert Einstein, Galileu Galilei, Isaac Newton, Nikola Tesla, foram considerados loucos em sua época, talvez esta frase tenha um fundo de verdade. Relembremos a história pessoal de Nikola Tesla. Este foi um inventor croata que se dedicava à engenhara mecânica e eletrotécnica. Nascido em 1856, trouxe "luz à terra" ao promover uma verdadeira revolução elétrica no mundo. Não querendo ser presunçoso em assunto que não domino, eletricidade, mas quando vivia nesta terra, Tesla se deparou com um problema - o motores de corrente contínua e suas limitações de levar energia a grandes distâncias. Tesla resolveu este dilema, apresentou ao mundo o motor de corrente alternada e hoje a energia elétrica pode percorrer quilômetros revolucionando a ciência. Mas, era considerado louco por muitos, excêntrico, alienado e celibatário. Dizia que a solteirice se adaptava melhor à sua vida de inventor. Fóbico, cheio de manias, fazia tudo conforme o número três, era obsessivo com limpeza e considerava a obesidade algo inaceitável. Desde criança, sofria de pensamento visual. Conseguia visualizar suas invenções funcionando em sua mente como uma foto, mesmo sem ainda tê-las criado materialmente. Tinha memória fotográfica e decorava livros em uma só lida. Portador de provável transtorno obsessivo-compulsivo, morreu com extrema sensibilidade a luz e ao som.  Um louco que possibilitou nosso conforto de hoje. Se assistimos TV, usamos lavadora de roupas, ligamos nossas lâmpadas, enfim, se recebemos em casa a energia elétrica, agradecemos a Nikola Tesla.

Eu não gosto de usar os termos normal e louco. Não acredito que a psiquiatria tenha que ser utilizada para descobrir e tratar os loucos. Até porque se formos internar todos os loucos, o primeiro a ser tratado somos nós mesmos. Leiam o livro O alienista de Machado de Assis e entenderão o que estou dizendo. Ninguém é normal ou louco, somos todos variações de um projeto humano primário. Pertencemos a um espectro de variações de pensamentos e comportamentos e, acredito, como psiquiatra, que devemos diagnosticar e tratar aquilo que cerceie a liberdade existencial do ser humano. Este é o conceito usado pelo psiquiatra de orientação fenomenológica Henri Ey, o qual acredita que a saúde mental "normal" se vincularia a possibilidade de transitar com graus distintos de liberdade sobre o mundo e sobre o próprio destino. A doença mental (loucura) sepulta as possibilidade existenciais dos seres humanos. Ou seja, "normal" seria aquele que pensa, sente e age em conexão com a realidade possibilitando desenvolver suas potencialidades sem trazer danos a terceiros. "Louco" seria a pessoa que perde a conexão com a realidade ou que passa a ter um modo de pensar que tolhe suas capacidades cognitivas ou que tenha um humor ou comportamento alterados a ponto de se prejudicar ou causar danos a terceiros. A título de exemplo podemos citar um paciente em estado de psicose acreditando estar sendo perseguido sem motivos para tal. Ao perder sua lucidez, vive se refugiando, com medo dos outros seres humanos e pode chegar a violência caso se sinta extremamente ameaçado. Ao estar neste estado, pode abandonar trabalho e sua vida social, perdendo sua liberdade existencial e, portanto, fugindo do padrão de normalidade aceitável em nossa cultura.

Estar "normal" é ser livre para viver com nossa razão e emoção expressando um comportamento sadio com nós e com o próximo.  Doenças como esquizofrenia, bipolaridade, depressão, uso de drogas, transtorno de personalidades podem afetar uma destas três grandes áreas de nossa vida e, portanto, afetar nossa "normalidade", jogando-nos no mundo da "loucura". São doenças tratáveis que, uma vez manejadas corretamente, podem devolver a qualidade de vida ao seus portadores. 

Para encerrar este texto deixo um poema do escritor português António Fernandes Aleixo. 

Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!

Ser doido-alegre, que maior ventura! 
Morrer vivendo p'ra além da verdade. 
É tão feliz quem goza tal loucura 
Que nem na morte crê, que felicidade! 

Encara, rindo, a vida que o tortura, 
Sem ver na esmola, a falsa caridade, 
Que bem no fundo é só vaidade pura, 
Se acaso houver pureza na vaidade. 

Já que não tenho, tal como preciso, 
A felicidade que esse doido tem 
De ver no purgatório um paraíso... 

Direi, ao contemplar o seu sorriso, 
Ai quem me dera ser doido também 
P'ra suportar melhor quem tem juízo. 

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..." 

autor

DR. TASSIO ALVARENGA LOPES

CRMMG 47.499 RQE 34.293

PSIQUIATRA COM FORMAÇÃO EM MEDICINA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA E RESIDENCIA MEDICA EM PSIQUIATRIA PELO CENTRO HOSPITALAR PSIQUIÁTRICO DE BARBACENA DA FUNDAÇÃO HOSPITALAR DE MINAS GERAIS.

 

RUA SANTOS DUMONT, 271 CENTRO CAMPO BELO MG

3831-1224 

99906-1224

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