18/08/2019

Notícia/Colunista

Suicídio: escolha ou destino?

Foto: Dr. Tassio Alvarenga Lopes

O primeiro boletim sobre suicídio lançado em setembro de 2017 pelo Ministério da Saúde mostra dados alarmantes sobre a saúde mental do brasileiro. Entre 2011 e 2016, cerca de 62.804 pessoas se suicidaram sendo 79 % de homens e 21 % de mulheres. Chama atenção o fato de que em tentativas de suicídio a proporção de mulheres é bem maior do que a de homens. No mesmo período, 48.204 pessoas tentaram suicídio, sendo 69% de mulheres e 31 % de homens. Em resumo, as mulheres tentam mais se matar, mas os homens são os que efetivamente conseguem se matar em maior proporção. Isto se deve ao fato de os homens utilizarem-se de métodos mais letais, tais como uso de armas de fogo, enforcamento e armas brancas. As mulheres tentam se matar mais frequentemente utilizando-se de intoxicação exógena (remédios e venenos). O grupo de pessoas com maior taxa de suicídio são os homens idosos, que sofrem com o abandono familiar e o divórcio, que estejam passando por desemprego ou perdas pessoais recentes e que possuam algum transtorno mental ou doença crônica. Ressalte-se também o alto número de mortes auto-infligidas entre os indígenas e a taxa cada vez maior entre jovens brasileiros - em 25 anos a morte por esta causa entre adolescentes e jovens cresceu 30 %.

É importante assinalar que dentre as principais causas de suicídio figuram os transtornos mentais passíveis de intervenção medicamentosa. Um paciente com esquizofrenia pode se matar ao ter uma alucinação auditiva com voz de comando que lhe mande se matar. Na depressão o paciente triste e sem esperança pode encontrar no suicídio a resolução imediata de seu sofrimento. O transtorno do humor bipolar, com suas fases depressiva e maníaca, também é uma causa importante do auto-extermínio. Nesta doença, a depressão costuma ter sintomas mais graves e pouco responsivos ao antidepressivos, necessitando de estabilizadores do humor (lítio). Não podemos nos esquecer dos transtornos reacionais. Devido a alguma perda desenvolvemos sintomas ansiosos e depressivos como resposta ou reação a perda. Esta pode ser a morte de um ente querido, o desemprego advindo de uma crise econômica como a que estamos vivendo, a descoberta de uma doença grave (câncer, aids, entre outras), um divórcio, bullying, escolha pela preferência sexual, entre outras tantas possíveis. Destaca-se o suicídio entre jovens e adultos que assumem uma preferência sexual homoafetiva e que por rejeição do ambiente ou própria não aceitação de sua escolha, podem se matar. O bullying mereceria um capítulo inteiro a parte. Cresce o número de desordens mentais advindas de agressões verbais, físicas e psicológicas entre alunos de escolas públicas e particulares, e um trabalho preventivo nestes locais poderia salvar a vida de muitas crianças e adolescentes. Não podemos nos esquecer do uso de substâncias psicoativas (drogas). O uso de drogas aumenta consideravelmente o risco de se matar, principalmente em pessoas vulneráveis, tais como as que tenham algum transtorno mental. As mulheres que fazem uso abusivo de bebidas etílicas (álcool) possuem um risco de 3 a 5 vezes maior de suicídio. Informando ainda que muitas drogas possuem efeitos psicóticos e psicodélicos que podem levar o paciente a crer que possuem um poder em especial, como podemos citar, o dom de voar. Desta forma podem se jogar de um prédio sob a premissa que voarão, mas na verdade, encontrarão a morte. Enfim, várias doenças psiquiátricas podem levar a uma pessoa a abreviar sua própria vida e, neste caso, podemos mudar o destino das mesma, com uma intervenção diagnóstica e terapêutica acertada.

Porém, precisamos também estar atentos a fatores ambientais e psicodinâmicos que podem levar o paciente a escolher a morte em detrimento à vida. Quem já ouviu falar de comportamento condicionado? Podemos condicionar um comportamento em um uma outra pessoa ou em um animal desde que reforcemos diariamente esta conduta.  Imagine uma criança que cresça em um ambiente em que os pais ou parentes próximos só vivam com diálogos depreciativos, negativistas, realçando a morte como solução de seus problemas e até mesmos tentando suicídio à vista dos menores. Com certeza estaremos criando futuros adultos com alto potencial ao suicídio. Projetamos o que introjetamos! quem vivem em uma atmosfera "tóxica", que realça a morte como solução diante de uma dificuldade da vida, só verá a mesma como saída. Pontuemos também o mal que a falta de diálogo e de convivência interpessoal tem causado entre as pessoas. Quantas vezes escuto de pais - " eu não consigo conversar com meu filho, converse com ele por mim !". Ou então - "eu não sei qual o conflito de minha filha, ela não me fala nada! ". Passamos anos nos aprimorando profissionalmente, nos tornamos bons advogados, ótimos médicos, excelentes vendedores, mas não conseguimos conversar com empatia com nossos filhos e parentes. Quando um ente querido se mata é um susto abissal. E dizemos -  " ele parecia tão bem! " mas o canal de comunicação estava defeituoso. A sintonização estava descompassada. O suicida pode até ter emitido um S.O.S., mas nunca tal alerta foi decifrado por quem estava próximo.  E continuando, como a vida urbana tem acabado com as relações interpessoais! não estou fazendo apologia para voltarmos à viver na zona rural, mas hoje, por motivo de violência, competitividade doentia entre as pessoas e a proliferação e disseminação de atos sociopáticos, temos ignorados todos à volta, inclusive parentes e amigos íntimos. Um filho perde uma mãe ou pai, fica órfão, e o apoio vem somente nos primeiros dias do luto. Passa o tempo, esquecemo-nos do sofrimento psíquico e das necessidades materiais do enlutado e nos fechamos no nosso mundo egoísta. Passa alguns meses, tal pessoa se mata e somos e tomados por um choque, poderíamos ter vivido e aliviado a dor do outro.

Outro ponto que clama por uma atenção urgente da família e das instituições públicas é o uso criminoso das redes sociais para disseminação da auto-flagelação e do suicídio. Sociopatas e sádicos criam grupos em redes sociais para disseminação de fotos e para incentivar comportamentos auto-destrutivos atingindo em cheio pessoas vulneráveis, neuróticas, com personalidades dependentes e masoquistas. Vai havendo uma disseminação da cultura da morte com aumentos de atos de auto-destruição preveníveis. Os pais precisam estar atentos ao que os filhos acessam nas plataformas digitais. Os criadores destes grupos midiáticos precisam responder por seus crimes. Os líderes religiosos precisam auxiliar as famílias no combate e na evitação de tais informações letais e deletéria à saúde

Por fim, precisamos também assinalar que muitos seres humanos se matam por opção. Por livre arbítrio, decidem não continuarem a viver, mesmo tendo apoio de psiquiatras, psicólogos e de suas famílias. A todo ser humano é facultado a possibilidade de se matar e de matar outrem. Diante das adversidades da vida, quem tiver raízes profundas, pivotantes, com um saúde mental adequada, com uma estrutura familiar sadia e com valores pessoais e sociais sedimentados, vai passar pelas mesmas com desenvoltura e manterá o rumo de sua vida. Por outro lado, pessoas com raízes superficiais serão levadas facilmente pelos dilúvios da vida e o suicídio poderá se tornar uma opção.

Se você sofre com pensamentos de morte e de suicídio e se já está planejando se matar, procure um psiquiatra, um psicólogos, um líder religioso, um amigo, um parente, enfim, procure ajuda. Caso não consiga de prontidão um auxílio, você pode ligar no número 188. Este número pertence ao centro de valorização da vida, uma associação civil fundada em São Paulo em 1962, sem fins lucrativos, que presta serviço voluntário de apoio emocional e prevenção ao suicídio. Não se acanhe. Se precisar ligue 188. Que a vida seja nossa escolha, que a morte natural seja nosso destino e que, tanto na vida quanto na morte, estejamos todos juntos!

autor

DR. TASSIO ALVARENGA LOPES

CRMMG 47.499 RQE 34.293

PSIQUIATRA COM FORMAÇÃO EM MEDICINA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA E RESIDENCIA MEDICA EM PSIQUIATRIA PELO CENTRO HOSPITALAR PSIQUIÁTRICO DE BARBACENA DA FUNDAÇÃO HOSPITALAR DE MINAS GERAIS.

 

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