18/06/2019

Notícia/Colunista

Jesus, no Calvário, estava deprimido?

Foto: Dr. Tassio Alvarenga Lopes

A psiquiatria, como disse em outro momento, não é uma vertente da religião. Trata-se de uma ciência bem fundamentada e com amplo respaldo científico. Psiquiatria e religião podem se complementar em seus conteúdos e, hoje, gostaria de abordar o tema DEPRESSÃO utilizando-se de uma passagem bíblica sobre Jesus Cristo. Na Bíblia Sagrada, no evangelho de Mateus, capítulo 26, versículos 36 a 39, está escrito: "Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. E, levando consigo a Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: a minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui e velai comigo.e, indo um pouco mais adiante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres." No evangelho de Lucas, capítulo 22, versículo 44 é possível se ler: " e, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até o chão".

Em uma sociedade cristã como a nossa, muitos conhecem a trajetória de cristo, desde o seu batismo por João Batista até sua morte na cruz e ressurreição, completando, enfim, sua missão na terra. O trecho que ressalto aqui é concernente aos momentos anteriores à prisão de Cristo, o qual se encontrava em um local chamado Getsêmani e estava em oração, prestes a ser traído por Judas, preso, julgado, condenado, crucificado e morto. Conforme estudiosos em teologia, desde o sofrimento no Getsêmani até a morte de Cristo, teriam se passado algo em torno de 18 horas na data sugerida de 03 de abril de 33 D.C.

Feito este prelúdio, gostaria de ressaltar aqui os conceitos do que seria o transtorno depressivo maior conforme o DSM 5 (Manual Diagnostico e Estatístico dos Transtornos Mentais, em sua quinta edição) - " O indivíduo precisa apresentar cinco sintomas em nove possíveis, que estejam perdurando por, pelo menos, 15 dias e que tragam um declínio social e funcional significativo. Entre os noves sintomas cardinais destacam - se: humor depressivo ou perda do interesse (apatia) ou perda do prazer (anedonia), irritabilidade (disforia), perda ou ganho de peso, perda de sono (insônia) ou aumento do sono (hipersonia), agitação ou lentificação psicomotora, fadiga (cansaço) e perda de energia, sentimento de culpa ou inutilidade, capacidade diminuída para pensar ou se concentrar ou raciocinar e pensamento recorrente de morte ou de suicídio.

Em outras palavras, uma pessoa deprimida passa por um momento crítico em sua vida, com duração mínima de 15 dias de sofrimento, durante os quais a pessoa passa mais de 18 horas diárias de tristeza ou de perda importante do interesse ou prazer de fazer algo de seu cotidiano. A pessoa deixa de ler, deixa de ir à academia, deixa de sair com os amigos, deixa de assistir seu programa deTV predileto, deixa de ir à igreja, deixa de estudar, deixa, enfim, de se envolver com tudo o que mais ama. Afasta-se das pessoas. A mente se lentifica. A cabeça parece oca. O tempo não passa. Tudo está cinza. Respirar é dolorido. Os planos ficam para outro momento. Perde-se a esperança. Os sonhos não existem mais e, agora, a morte se torna uma opção. O suicídio é uma porta para se dar fim a um sofrimento, embora não resolva a causa do mesmo. 

E Jesus Cristo, dada a passagem bíblia e confrontando-a com os critérios clínicos para depressão, estava deprimido no Getsêmani?  A resposta é não! Jesus não estava deprimido. Embora estivesse angustiado e tomado por uma profunda tristeza, o quadro de Jesus não fecha os critérios diagnósticos para depressão. Jesus estava em uma missão -  salvar a humanidade de seus pecados. Portanto, Jesus estava para realizar seu sonho de reestabelecer a comunhão entre Deus e os homens. Embora passando por uma tristeza momentânea, que pode ter durado pelas próximas 18 horas até sua morte, não encontrava-se com humor depressivo por 15 dias ininterruptos. Mesmo angustiado, orava, sua capacidade cognitiva estava intacta e, a fadiga e a lentificação psicomotora não se faziam presentes em seu atos. Mais tarde, inclusive, iria carregar sua própria cruz até o Calvário. Jesus, ao contrário de uma pessoa deprimida, não sofria pela dúvida, mas pela certeza, de saber que iria morrer. Jesus passava por um quadro reacional de humor ou reação aguda ao estresse, sobre os quais podemos falar em outra ocasião. Por fim, Jesus não se matou. O suicídio não era uma opção válida para ele. Foi morto e sua morte completou sua missão e seu sonho.

O importante de toda esta conversa é mostrar que, podemos estar tristes, angustiados e ansiosos devido a diversos motivos, sem que isto configure um transtorno depressivo. Estar deprimido é uma condição, um processo, uma evolução, que dura dias e que impacta a vida de uma pessoa de tal forma que pode levá-la a morte. Se você conhece alguém que preencha os critérios para depressão, ajude-a! Existem diversas formas de se ajudar uma pessoa deprimida. O tratamento passa por um psiquiatra prescrevendo antidepressivos, por um psicólogo instituindo uma terapia adequada e por um educador físico implementando uma rotina de atividades físicas. Pode se lançar mão também dos préstimos valorosos de um homeopata, de um acupunturista ou de um massoterapeuta. Enfim, se queremos uma qualidade de vida melhor para nossa sociedade é preciso divulgar o verdadeiro conhecimento sobre a depressão e ajudarmos nossos irmãos depressivos utilizando-se dos recursos disponíveis. 

Na próxima semana vamos falar sobre suicídio. Seria o suicídio um ato passivo ou ativo do ser humano?

autor

DR. TASSIO ALVARENGA LOPES

CRMMG 47.499 RQE 34.293

PSIQUIATRA COM FORMAÇÃO EM MEDICINA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA E RESIDENCIA MEDICA EM PSIQUIATRIA PELO CENTRO HOSPITALAR PSIQUIÁTRICO DE BARBACENA DA FUNDAÇÃO HOSPITALAR DE MINAS GERAIS.

 

RUA MAJOR JOSE GALDINO, 133 CENTRO CAMPO BELO MG

3831 - 1224 

99906 - 1224

Veja também