14/12/2018

Notícia/Colunista

A bordenilização da sociedade - A importância da mãe suficientemente boa

O ser humano existe! A criança existe! Várias pessoas passam a existir! Uma sociedade se forma! E, sem dúvidas, esta sociedade refletirá, em seus progressos e retrocessos, a somatória de cada personalidade individual.

Quando a criança nasce e fita os olhos de sua mãe, inicia-se um processo complexo de formação da mente deste novo ser. Para crescer saudável o bebê precisa ser reconhecido como pessoa e não como objeto. Não basta ser cuidado, mas cuidado com amor!  A mãe precisa executar cada tarefa com prazer. Como diz Winnicott -  a mãe suficientemente boa cria seu filho prazerosamente, construindo um ambiente protetor e, gradualmente, planta as bases das desilusões infantis. A criança que nasce com fome, com frio, carente, vulnerável, será cuidada e adaptada a um ambiente muito estressor, - o mundo!

Viver é se frustrar! Quem não se frustra não cresce! Wilfred Ruprecht Bion, um psicanalista britânico, apresentou conceitos valiosos sobre a importância da mãe na frustração adequada do filho. Nascemos com elementos betas destrutíveis - sentimentos caóticos e necessidades básicas - e precisamos transformá-los em elementos alfa - sentimentos funcionais e o suprimento adequado de nossas necessidades básicas. A mãe suficientemente boa promove a alfabetização de seu filho, fornecendo a alimentação, o vestuário, pondo o filho para se deitar, limpando suas excreções, sabendo lidar com a raiva e o choro do bebê, mas, também promovendo a frustração adequada da criança. Não será a todo momento que esta mãe estará disponível para sua criança. Existe um pai e outros irmãos que também precisam desta mãe. Existem regras de convivência familiar e social e, tudo isto deverá ser introjetado no pequeno ser em formação. A frustração adequada gera adultos saudáveis.  O excesso de frustrações - fome, sede, frio, violência doméstica, abuso sexual, rejeição dos pais -  e a ausência de frustrações -  a superproteção dos pais, a não imposição de regras familiares e sociais, o uso irracional dos recursos que suprem as necessidades básicas do filho - geram adultos com traços borderlines de personalidade e, consequentemente, a borderlinização da sociedade - tema deste artigo.

Estar ou ser borderline é a essência de não ter tido um personalidade bem estruturada, com a manutenção de uma parte psicótica encistada, e cuja origem está na ausência de frustrações ou no excesso de frustrações ao longo da vida da criança. Formam-se indivíduos com humor instável, impulsivos, com tendência a manifestações auto-agressivas (suicídio, cortes cutâneos), com atitudes beligerantes, com pensamentos disfuncionais de onipotência (tudo posso) e onisciência (tudo sei) e comportamentos disruptivos (falta de respeito às normas, regras e leis sociais). Daí a responsabilidade da mãe, do pai e dos cuidadores da criança ao promover um ambiente de criação de amor e carinho, mas também de gerar uma atmosfera de imposição de limites, os quais serão a base da formação de seres humanos sadios mentalmente. A sociedade se forma no berço e quem balança este berço precisa entender seu papel crucial para o bem estar social. A decisão de ter filhos, o compromisso de criá-los com prazer, a obrigação de estrutura-los nas normas sociais são os primeiros passos para a redução das enfermidades psiquiátricas, para a redução da violência atual e para um convívio saudável a todos. Viva a mãe suficientemente boa - o remédio a curto e longo prazo para a transformação da sociedade atual.

autor

DR. TASSIO ALVARENGA LOPES

CRMMG 47.499 RQE 34.293

PSIQUIATRA COM FORMAÇÃO EM MEDICINA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA E RESIDENCIA MEDICA EM PSIQUIATRIA PELO CENTRO HOSPITALAR PSIQUIÁTRICO DE BARBACENA DA FUNDAÇÃO HOSPITALAR DE MINAS GERAIS.

 

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